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DEPOIMENTO JOSÉ CARLOS FARINHAKI

DEPOIMENTO JOSÉ CARLOS FARINHAKI

O início da minha história à frente do Atlético foi em meados da década de 70. Havia doze anos que o clube não ganhava títulos nas categorias de base. Quando assumi, o time ganhou 5 títulos em dois anos e meio, e tivemos três jogadores convocados para a seleção brasileira da categoria.

Em 1983, 1985 e 1988, nas três conquistas do campeonato paranaense, eu era diretor de futebol do Atlético.

Em 1989, o Atlético passava por momentos difíceis. Ninguém queria assumir o clube. Estávamos na segunda divisão e presos a um contrato injusto de uso do Pinheirão, estádio que o nosso torcedor rejeitava. As rendas dos jogos mal davam para pagar a arbitragem. Encarei o desafio e assumi a presidência do clube, prometendo ganhar o campeonato paranaense e ascender à primeira divisão, o que foi realizado. Reforçamos o elenco com bons atletas, incluindo quatro jogadores que convocados para a seleção brasileira.

Atendendo ao clamor da torcida para voltar à nossa casa, comuniquei ao presidente da Federação, Onaireves Moura, que o Atlético ia construir seu estádio. Ele respondeu:

— Com que roupa?

Eu respondi:

— Com a camisa rubro-negra!

Fui ameaçado de processo contra o clube por causa do contrato com a Federação, que previa o uso do Pinheirão por cem anos. Mas o fato é que a Federação não cumpria seus acordos contratuais com o Atlético. Então, diante do presidente da Federação e das câmeras de TV, rasguei aquele contrato abusivo, e entramos com ação para requerer nossos direitos. Só recentemente ganhamos aquele processo, o que rendeu uma importante indenização ao Atlético.

Mas, na época, encarávamos o desafio de voltar. A essa altura havia uma forte pressão para vender a nossa sede para um shopping de Curitiba. Como eu era totalmente contra a ideia, até me ameaçaram de impeachment. Mas tive uma reunião com os potenciais compradores e avisei que comigo o Atlético jamais faria aquele negócio. Nisso fui apoiado pelo Conselho.

Assim, com muito trabalho, construímos o estádio e por fim voltamos ao Joaquim Américo. Felizmente, à época, pude reunir certa quantia em dinheiro, que acabei emprestando ao Atlético, cuja necessidade era muito grande, acreditando que pudesse ser eventualmente reembolsado quando a situação mudasse. Mas isso nunca aconteceu — e o que era empréstimo virou doação. Isso não me deixa infeliz, mas me traz satisfação e orgulho de ter tido a oportunidade de contribuir quando o clube mais precisou.

Não existem grandes atleticanos: todos os atleticanos são grandes. Eu me lembro da ajuda valiosa que recebemos de muitos amigos atleticanos, com destaque para a colaboração incansável do ex-governador Ney Braga. E, quando o estádio ficou pronto, a torcida, em um gesto de gratidão e carinho, até o apelidou de “Farinhacão”.

Íamos inaugurar o estádio ao final do meu mandato, no fim do ano, mas a nova diretoria pediu para adiar o evento em três meses, alegando que precisava preparar uma grande festa. Mas, talvez achando que iam enganar a torcida e receber os créditos pela obra, quando o evento ocorreu, eu nem fui convidado a participar! Porém, quando me viram no estádio, fui aclamado pela torcida inteira.

Em 1995, após a renúncia do presidente Hussein, montamos uma comissão gestora até as eleições. Eu fiquei encarregado do futebol, e Mario Celso Petraglia era o presidente. Lembro-me de dizer-lhe que ele seria o presidente campeão. E assim foi. Ganhamos o campeonato brasileiro e voltamos à primeira divisão naquele ano.

Nas eleições, diziam que eu seria o candidato imbatível. Mas senti que naquele momento Petraglia reunia melhores condições para administrar o Atlético.

A partir daquele período, me retirei da administração do clube. Em várias ocasiões fui sondado para voltar, mas não aceitei, e nunca pedi cargos.

Em 2011, a intenção do grupo que geria o clube e hoje está na oposição era entregar a gestão do patrimônio do clube por 25 anos à OAS, empreiteira hoje acusada na operação Lava Jato. Essa ideia me revoltou, o que me levou a reunir conselheiros e sócios e formar um movimento para impedir que ela avançasse, o que felizmente ocorreu. E foi em 2011, também, que o Atlético caiu para a segunda divisão pela primeira vez desde 1995.

Eu não ia participar desta campanha. Mas fui atacado pelo grupo de oposição, e, ao me defender, percebi que eles não têm a credibilidade necessária para administrar a grandeza do Atlético. Os candidatos passam insegurança e o histórico do grupo deles é ruim, conforme se nota em vários dos episódios que aqui descritos.

Senti-me na obrigação de defender o clube. Conheço a seriedade, a transparência, a idoneidade de Luiz Sallim, um homem honesto e que não se deixa manipular. O Atlético precisa evoluir sempre, mas essa mudança tem de ocorrer com responsabilidade. Não se devem tomar decisões baseadas no ódio, no rancor ou no imediatismo tacanho, mas sim de acordo com o que é melhor para o Atlético como um todo e com visão de longo prazo.

Se o que eu representei para a história do Atlético significa algo para vocês, eu gostaria de pedir que tenham com consciência e ajam com responsabilidade na hora de entregar o comando do clube. Eu apoio o que é bom e critico o que é errado. Ao longo da história, para sorte do clube, aqueles que tinham visão limitada e quiseram solucionar questões graves e difíceis com soluções fáceis, entregando o nosso inestimável patrimônio, foram vencidos. Nosso clube sobreviveu e chegou aonde está porque aventuras foram impedidas.

Portanto, votem com responsabilidade. Contem a história de lutas e conquistas do Atlético aos seus filhos, que hoje estão acostumados com o grande clube que temos. Se continuar no bom caminho, agora que uma grande parte dos desafios foi vencida, e com o apoio de todos vocês, ele tem todas as condições de se tornar muito maior ainda.

José Carlos Farinhaki

Ex-presidente do Clube Atlético Paranaense

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