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O Tempo. por Rafael Lemos.

Rafael Lemos logo Abro a torneira. As mãos em concha recolhem a água que molha o meu rosto. Do queixo pingam as gotas que escorrem pelo pescoço, enquanto procuro o tubo de espuma de barbear. Encho a palma de uma das mãos com a espuma branca e perfumada e espalhando o produto percebo que o tempo agiu em mim, ainda que eu não tivesse dado conta. As entradas capilares estão maiores, a barba branca aparece por toda a face e basta comprimir de leve as pálpebras para ver as rugas nos cantos dos olhos. Há cabelos brancos no peito, e eu nem havia notado. Acho graça.

Enxaguando a lâmina sob o jato forte da torneira assobio uma canção que deve ter no mínimo 50 anos. É um bolero que logo no início diz: “Reloj, no marques las horas/porque voy a enlouquecer”. Concluo: se alguém neste Mundo quer ficar maluco, que trave duelo contra o Tempo. Ninguém pode vencer o Tempo. E se ele é um dos maiores adversários que temos, devemos reconhecer, também, que é um de nossos maiores Mestres. A gente aprende muito com o Tempo.

Em sua marcha, o Tempo não atrasa e não adianta. São sempre os mesmos 60 compassos de segundo a completar o minuto. Segundos sempre do mesmo tamanho, chova ou faça sol. Não há no tempo desespero, não há angústia, tampouco compaixão. O tic-tac mecânico faz os dias terem exatamente o mesmo tamanho. Produção onde não há perda, não há descarte, não há dissipação de energia: o Tempo nos entrega o produto perfeito de seu engenho e que façamos dele bom ou mau proveito. O dia está aí sempre do mesmo tamanho para que o usemos como melhor nos aprouver.

Enquanto me barbeio, o bolero ainda na cabeça: “Y tu tic-tac me recuerda/Mi irremediable dolor”. E filosofando admito que a dor não é fruto do Tempo, mas é fruto de não sabemos observar o Tempo, é fruto de querermos as coisas muitos antes ou muito depois do Tempo. Sofremos quando uma mulher se vai das nossas vidas, mas deixamos de reconhecer o óbvio: o Tempo se esgotou.

O que era preciso viver foi vivido no seu Tempo: o mais não era pra ser, o mais não nos pertencia, o mais era pura pretensão. E em vez de recordarmos o Tempo bom que tivemos com a amada, passamos a lamentar o Tempo que poderíamos ter tido, o Tempo que não veio. Sofremos pelo que não pudemos ter e deixamos de lado a alegria que conseguimos realmente viver. O homem contra o Tempo. Duelo sempre perdido, pois ninguém pode atentar contra o Tempo ou lhe atingir a carne feita de espaço, de cosmos, de estrelas.

A dor não é fruto do Tempo, mas é fruto de não sabemos observar o Tempo, é fruto de querermos as coisas muitos antes ou muito depois do Tempo, a dor é fruto de não aceitarmos a própria marcha do Tempo. Sofremos no futebol quando certa vitória não vem e às vezes deixamos de reconhecer o óbvio: ainda não era o Tempo daquela vitória. E passamos a lamentar a derrota como se fôssemos seres predestinados ao infortúnio, esquecendo-nos das tantas vitórias que – tempestivamente – obtivemos!

Desesperados, nos esquecemos da Palavra: “Há tempo de nascer, e tempo de morrer; tempo de plantar, e tempo de arrancar o que se plantou; Tempo de matar, e tempo de curar; tempo de derrubar, e tempo de edificar; Tempo de chorar, e tempo de rir; tempo de prantear, e tempo de dançar!”. Inútil lutar contra o Tempo; sábio o que aceita sua marcha; feliz aquele que finalmente reconhece que tudo entre o Céu e a Terra tem o seu Tempo: seja um grão, seja um homem, seja um ideal, seja um amor!

Aos 90 anos recém completados, o Clube Atlético Paranaense está prestes a encerrar seu Tempo de construir. A monumental Arena da Baixada no último dia 29 de Março se apresentou majestosa aos olhos marejados de milhares de Atleticanos que por ela passaram. A seu tempo, a Arena renderá ao Atlético frutos econômicos e esportivos. Safras fartas de títulos e receitas. O Tempo da colheita não demora a chegar e quando chegar vai nos recompensar a dureza dos tempos secos de semeadura.

O Tempo do plantar está se esgotando para dar lugar ao Tempo de colher, mas o Tempo de colher ainda nos espera. Não adianta lutar contra o Tempo, sob pena de ficarmos malucos. É preciso serenidade para plantar o grão, colher o trigo, fazer a massa, transformá-la em pão e depois dividi-lo para que sacie os apetites, “porque há um tempo para todo o propósito e para toda a obra”.

Abro a torneira. As mãos em concha recolhem a água que enxagua o meu rosto. Do queixo pingam gotas que escorrem pelo pescoço. Procuro a toalha (do Atlético!) para secar o fio generoso que se avoluma a caminho do peito e me incomoda. Encho as palmas das mãos com um pós-barba perfumado e espalhando o produto percebo que o tempo agiu em mim, ainda que eu não tivesse dado conta.

Aprendi a ter paciência e a aceitar que todas as coisas acontecem a seu tempo. Sei que o Atlético não irá longe nesta Libertadores de 2014, pois dificilmente vencerá a altitude de La Paz – um de seus adversários na próxima terça-feira, já não bastassem o The Strongest e os desfalques! Sei que um eventual resultado negativo não diminuirá em mim a crença inquebrantável no Projeto de um Clube Atlético Paranaense Gigante.

Sei que uma eventual desclassificação na próxima terça não atentará contra a minha esperança. Sei que um dia o Clube Atlético Paranaense será Campeão das Américas, mas sei que ainda não chegou o Tempo. Sei que esse Tempo se aproxima. Sei que um revés será tomado como fato político pelos maus Atleticanos, sempre dispostos a criticar. Às vezes tenho raiva deles, mas no fundo acho graça. São homens tolos que lutam contra o Tempo, homens que não sabem que há um tempo para todo o propósito e para toda a obra.

A gente aprende muito com o Tempo. Eu aprendi.

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